Nota introdutória de
A CIDADE DOS SÍFRAGOS
Tentativa de reescrita da sinfonia 4 33  de John Cage

(tese de doutoramento de Carlos Miguel Rodrigues)

No âmbito da investigação sobre o som na cidade do Porto, a Antropologia Visual é o quadro de referências metodológicas utilizado para etnografar a cidade com vista à realização de documentos audiovisuais, bem como à análise de um conjunto de filmes de ficção e documentário rodados, no Porto, durante o século XX. No entanto, a observação ou pesquisa de sonoridade e de estados acústicos urbanos não usa apenas o audiovisual, mas também a teoria antropológica, a acústica, a literatura, a monografia, a ensaística, a imprensa…

 
Na opinião do Professor Doutor Miguel Alonso da Universidade de Barcelona, esta tese de doutoramento terá fundado a Antropologia Sonora como disciplina científica na ciência antropológica, opinião que se não for sancionada pela História "pode ser pior que coisa nenhuma". Quanto a nós, ela, de facto, construiu um método de observação etnoacústica na caracterização sonora das cidades e na realização de filmes através do registo da investigação etnosonográfica dos lugares.
É com este quadro teórico e metodológico que a antropologia sonora tenta construir etnografias e evolutiva e continuamente se interroga acerca das características da sonoridade urbana, tentando desvendar a questão de se poder admitir que os efeitos sonoros exerçam influências, provocando alterações sobre o viver e a saúde dos cidadãos e sobretudo sobre o crescimento das crianças que nela habitam. Permanecendo a questão de considerar se será admissível que numa sociedade com origem em crianças sífragas resulte alteração nas tipologias de cidadão e de cidadania.
Com a primeira das investigações realizadas depreendemos que os sons da cidade se integram na história sonora do planeta, e avançamos organizando um quadro em que, através do conceito metáfora Oceano Universal Pansonoro, enumeramos e explicamos as possíveis idades sonoras da terra. Correlacionando as idades sonoras da terra com a história da evolução tecnológica e considerando outras variáveis como a densificação demográfica e a tipologia da arquitetura urbana, enumeramos e classificamos as sonoridades e sociofonias em cinco janelas virtuais de escuta histórica. O estudo revelou ainda a existência de uma cultura de não escuta e a inexistência de discriminação sonora urbana, ficando as etnografias reduzidas a dialogias com pouco discriminação e aos fatalismos acústicos omnipresentes. Por este motivo, foram apontados, sob formato de propostas e sugestões, o que chamamos de Convenção Cívica para a Sonoridade Urbana e uma arquitetura urbana virada para a construção de monumentalidades não só visuais mas também acústicas, a partir da arquitetura de Cister.